Anthares

SOURCE – No Limite da Força da força completa 30 anos em 2017. Quantos relançamentos o disco já teve e quais as atividades comemorativas para esse importante aniversário?

Evandro Jr (Drums) – Se minha memória não falha, o álbum foi relançado pela Devil Discos em vinil ainda nos anos 80 e posteriormente relançado em CD pela Rock Machine Recs. Em 2015, outro relançamento no formato digipack pela Mutilation Records, que também o relançou em vinil no mesmo ano, em edição limitada de 500 cópias que se esgotaram rapidamente. Houve também um relançamento em Portugal numa edição de luxo em vinil a alguns anos atrás. Nós estamos preparando um show especial comemorativo em que tocaremos o álbum na íntegra. O principal acontecerá em São Paulo nos próximos dias e será realmente histórico para nós, pois conseguimos reunir a formação original que gravou o álbum em 1987. O guitarrista Cristian Echenique está vindo do Chile especialmente para subir ao palco neste show, além do Henrique “Poço”, que vive em Pernambuco. Faremos alguns ensaios juntos ao longo da semana até o dia do show. Também lançamos a camiseta comemorativa do “No Limite da Força” recentemente e temos planos de registrar esse momento marcante em DVD.

SOURCE – A primeira vez que tive notícia do Anthares foi pela contra capa do Morbid Visions do Sepultura, onde os integrantes usavam camisas da banda. Como você avalia aquela exposição?

Evandro Jr (Drums) – Na real nós éramos muito amigos dos caras do Sepultura naquela metade dos anos 80, convivíamos bastante em São Paulo quando eles vieram de BH para cá. Eles chegaram a frequentar nossos ensaios. Lembro também que emprestei para o Igor o bumbo da minha bateria para ele gravar o “Morbid Visions”. Quando lançamos nossa camiseta, nós demos algumas para o Max, o Igor e o Jairo. Em retribuição a nossa amizade, eles tiraram fotos vestindo nossa camiseta, e acabaram escolhendo algumas para contra-capa e encarte do vinil original do “Morbid Visions”. Também fizemos shows históricos com o Sepultura naquela época, na capital paulista e interior.

SOURCE – Qual o motivo da demora em lançar o segundo álbum O Caos da Razão? Como foi a produção do álbum?

Evandro Jr (Drums) – Essa é uma longa história. Vou tentar resumir: o Anthares viveu um período fantástico no final dos anos 80. Foram shows incríveis ao lado das maiores bandas do Brasil, mas a partir dos anos 90, vieram os problemas com as mudanças de formação. Tivemos um hiato de 03 anos sem gravar nada, até que em 93 gravamos uma demo que foi bastante divulgada, assim como outra demo já em 95, a “Retaliation”, ambas com um novo vocalista. Mas foi um período difícil para nós, não havia um foco, um objetivo concreto e a banda decidiu encerrar suas atividades em 96. Voltamos a nos reencontrar em 2004 para a realização de um show, que por sinal foi surpreendente para nós, foi uma loucura, tivemos uma recepção calorosa do público numa casa lotada em São Paulo e dali pra frente decidimos voltar, mas focados em apenas se apresentar tocando as músicas do “No Limite da Força”. Em 2008, com a chegada do Diego Nogueira nos vocais, começamos a traçar planos de compor e gravar um novo disco, o que para nós já vinha se tornando uma obrigação, afinal estávamos na ativa novamente. Só nos sentimos preparados para isso em 2013, com o material definido e uma responsabilidade enorme de gravar o sucessor do “No Limite da Força” depois de 27 anos! Fizemos tudo com muita calma e com muita atenção em cada detalhe, não queríamos que as pessoas se decepcionassem com o Anthares depois de tantos anos sem gravar. Queríamos que o novo álbum soasse verdadeiro, orgânico, pesado e felizmente “O Caos da Razão” teve uma receptividade fora do comum, além do que esperávamos, um digno sucessor do álbum de estreia e um presente para todos aqueles que continuam nos apoiando até os dias atuais.

SOURCE – Como estão os preparativos para o lançamento de um novo álbum?

Evandro Jr (Drums) – Nós retomamos o processo de composição a alguns meses atrás. Posso adiantar que temos 04 novas músicas compostas, ainda sem a parte lírica e não sabemos ao certo se gravaremos um EP ou um terceiro álbum, ou até um split. O legal do EP é que ele pode conter até umas 06 músicas, e nesse caso, nós estamos mais próximos de concretizá-lo, talvez ano que vem. Já um álbum demanda de mais tempo para compor e ensaiar, e como não vivemos de música, não é sempre que podemos nos reunir pra trabalhar nisso. O Anthares tem 02 discos e algumas demos, mas nunca gravou um EP ou um split, por isso ambos os formatos estão nos nossos planos mais imediatos.

SOURCE – Atualmente como você avalia o cenário de São Paulo?

Evandro Jr (Drums) – Numa visão particular, tenho percebido um certo desinteresse do público com bandas mais underground, shows vazios e mais escassos. Ao mesmo tempo, alguns eventos esporádicos com bandas que já tem certa estrutura e um trabalho mais sólido, tem atraído bom público. É aquilo, a sensação que sempre se tem é de que o cenário underground jamais se modifica, na real ele tem diferentes níveis. Bandas novas sofrem com pouco respaldo do público, pouca estrutura dos eventos e prejuízo financeiro. Bandas mais conceituadas vivem num segundo patamar onde conseguem geralmente se auto sustentar com pequenos cachês e um público mais presente. Acho que esse é o cenário de São Paulo e do Brasil. Porque um terceiro patamar já é para poucos, muito poucos que realmente conseguem se dar ao luxo de tentar sobreviver só de música, aí você conta nos dedos. É cruel, é desleal e injusto muitas vezes, porque em meio a esse cenário de bandas ensaiando, compondo, tocando e gastando suas economias num futuro totalmente incerto, surge a figura do agenciador, que dependendo do seu grau de influência na cena, eleva uma banda ao segundo ou terceiro patamar, sem que esta ou aquela banda talvez faça um trabalho digno de merecimento ou aplausos. Você percebe claramente que o que está mandando aí é só o dinheiro e o público acaba indo na onda porque absorve aquilo que lhe é empurrado e forçado a valorizar. Certo ou errado, não sei, mas eu já vivi 32 anos de underground e nada mais me surpreende.

SOURCE – Previsões de lançamento de um vídeo clipe para divulgação das atividades da banda?

Evandro Jr (Drums) – A princípio estamos estudando a possibilidade de produzir um DVD sobre a história dos 32 anos de Anthares, mas gostaríamos de fazer isso como complemento de um futuro novo disco ou EP, como um pacote especial e comemorativo. Evidente que a partir do momento que lançarmos um novo trabalho, vamos trabalhar também na produção de um novo clipe oficial.

SOURCE – Considerando ser um músico experiente e atuante na cena, você possui algum saudosismo do cenário dos anos oitenta e noventa?

Evandro Jr (Drums) – Eu nunca fui saudosista, como é o caso de muitos amigos das antigas que tenho. Estou sempre antenado com o que acontece no presente. Estou sempre buscando novas bandas, novas sonoridades, algo que me surpreenda. Me incomoda a sensação de estar “envelhecendo”, entende? E o saudosismo me trás essa sensação desconfortável. Não significa que não respeite o passado, pelo contrário, venero muito do que foi criado e construído em termos musicais no passado. É o alicerce dos dias atuais, mas tenho ouvidos e alma jovem o bastante para reverenciar bandas modernas, e muitas delas me trazem energia positiva, boas vibrações, ao mesmo tempo que vejo gente da minha idade, que viveu comigo o início de tudo em termos de heavy metal, mas que está lá nos anos 80 até agora e torce o nariz para tudo que é novo, moderno, atual.

SOURCE – Algo mais a ser acrescentado?

Evandro Jr (Drums) – Obviamente meu agradecimento ao SOURCE ZINE e a figura do Falber Teles que conheci nos anos 90, naquela época das filas nos correios, das fitas k7, do material xerocado, dos zines impressos. Tenho comigo até hoje uma cópia do SOURCE em que o Anthares esteve presente naquela época e é muito legal vê-lo em atividade e divulgando o trabalho das bandas underground. Hoje, aos 51 anos de idade continuo na ativa, compondo, gravando e fazendo shows por aí, tanto com o Anthares, quanto com o Skinlepsy e não sei exatamente quando vou parar, provavelmente no dia que meu corpo não conseguir mais responder aos comandos, mas digo com a maior tranquilidade do mundo que em 32 anos de underground jamais ganhei dinheiro algum, pelo contrário, apenas investi dinheiro naquilo que eu gosto que é o metal, seja compondo, seja gravando, seja tocando nos piores buracos desse mundo. Esse é o recado que gostaria de deixar para todos aqueles músicos que estão aí na ativa apenas sonhando com fama e dinheiro e que jamais chegarão a lugar nenhum. Saiam da frente e deem espaço para os moleques que fazem isso apenas por tesão e talento porque eles são o futuro dessa porra toda.

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