Last Update on January 10, 2008 14:25  

KARMA

// Falber Teles

KARMA

S  - Primeiramente eu gostaria de parabenizar a banda pela boa produção do álbum "Leave Now !!!" ! Como surgiu a idéia do lançamento em digipack ?
THIAGO BIANCHI (V) - Obrigado pelo elogio! A história do digipack já vinha sendo amadurecida pelo pessoal da banda desde o “Inside...” (que foi o primeiro álbum brasileiro a ser lançado nesse formato).

Alguns fatores foram decisivos para que a história se repetisse, tais como:
- Gostaríamos muito que a produção gráfica acompanhasse a musical e sonora, já que a tônica do disco é o moderno, o atual!
- O Eric (proprietário de nossa gravadora) também se mostrou super empolgado em fazer deste disco o mais profissional possível!
- Devido ao alto número de discos baixados da ‘net’ e os famosos piratas, vendidos até lojas como ‘sebos’, elevou ainda mais a necessidade de se fazer algo que valesse a pena para o fã realmente comprar. E ainda sim chegar a um preço ‘accessível’ para todos.

Acredito que nesses quesitos, fomos bem sucedidos.

FABRIZIO  DI SARNO (K) - Obrigado! A idéia do digipack foi do Eric (da Dynamo Records) e muito bem aceita pela banda, já que a experiência do primeiro álbum em digipack foi muito boa!
  
S  -  O que você poderia dizer de significante sobre a carreira da banda para aqueles que nunca ouvirão falar do grupo ?
TB - Somos uma banda de ‘World Prog’ e temos como objetivo mudar a cara do Metal brasileiro. Acho que isso diz tudo o que vocês precisam saber!

MARCELL CARDOSO (D) - Procuramos fazer um som diferente de todo o resto, que é desenvolvido a partir de nossas influências, em busca de algo novo.

FDS - Digamos que eles não sabem o que estão perdendo e precisam conhecer o som da banda urgente!!!!!

S  - Vocês levaram cerca de cinco anos para lançar um novo álbum. Fora os problemas de saúde do Thiago Bianchi, qual o motivo de tanta demora ?
TB - Sim, em parte. Infelizmente, há dois anos, em meados do início das gravações do “Leave...”, fui diagnosticado com câncer no Mediastino (cavidade que aloja o coração), além disso, na mesma época, meu estúdio foi roubado e tive de começar do zero a comprar tudo de novo! Mudamos mais algumas vezes de baixista, meu estúdio mudou de lugar... Bom, não faltaram problemas!

Mas graças a Deus isso é coisa do passado e o disco está aí pra contar a história melhor do que nós mesmos!

MC - Acho que os problemas foram tantos, que só nos dava mais força pra seguir adiante com o projeto. Quando começamos o trabalho, sabíamos da força das composições e tentamos não nos preocupar muito com o tempo, só queríamos fazer um grande trabalho! 

FDS - Houve troca de estúdio,  demorou muito para a nova estrutura ficar pronta (e tão boa quanto está hoje)! Houve duas ou três trocas de baixista até a volta triunfante do Felipe (Andreoli) e, finalmente, o eterno problema da falta de recursos o que nos obrigou a cuidarmos dos nossos trabalhos paralelos colocando a banda em segundo plano até nos estabilizarmos melhor, para então, nos dedicar ao disco!

S  - Como tem sido a receptividade do disco ?
TB - Melhor do que o esperado! Fico muito orgulhoso e profundamente realizado com as coisas que ouço das pessoas que compraram o disco. Fora àquelas resenhas de veículos com interesse pessoal em não deixarem bandas de fora de suas panelas se destacarem, os comentários tem sido os melhores possíveis!

MC - Estou muito feliz com o resultado! É engraçado, porque muitos ficam assustados com a qualidade do disco e com os detalhes da produção e as vezes chegam a duvidar da procedência do trabalho! Acham que foi gravado ou mixado lá fora!

S  - Quais são os planos para divulgação no Exterior de "Leave Now" ?
TB - Acabamos de fechar com a JVC do Japão (a maior gravadora do segmento por lá) para o licenciamento do “Leave...” (além de China, Coréia e alguns outros países do oriente...). E pra mim é uma vitória muito importante, já que eles são muito criteriosos com a escolha de seus artistas!
Agora estamos em conversação com alguns países da Europa. Tomara que dê certo!

S  - Thiago você tem um estúdio chamado Via Musique, no qual o disco foi gravado. Financeiramente como foi feita essa produção ?
TB - Não pusemos a mão no bolso, mas sabe como é... é um investimento! E por enquanto muito positivo, já que bandas do Brasil todo têm me procurado para produzir seus discos em função do “Leave...”! Bandas até como: SHAAMAN (onde já nos encontramos em fase de pré-produção), o disco solo do Eduzinho Ardanuy (em fase de mixagem) e até o próprio Dr. Sin (também em fase de pré). Acho que valeu muito a pena!

S  - A gravadora arcou com todas as despesas com o lançamento do disco ?
TB - Não. Eles ficaram encarregados da prensagem e marketing. Na época de conversação com as gravadoras para o lançamento do disco, pudemos perceber que este tipo de matemática virou praxe!

E estamos muito felizes e satisfeitos com o trabalho do Eric. Na verdade, lamentamos não ter trabalhado com ele antes!

S  - Eu particularmente não tenho escutado muitas bandas nacionais com o potencial do KARMA. Como vocês encaram o profissionalismo na cena brasileira ?
TB - Olha, isso é fruto apenas de nossa galhardia em tentar mostrar ao mundo o quanto não estamos nada satisfeitos com o monopólio musical existente no Brasil. Além do fato de tudo na cena metálica ser difícil de engolir, pois é sempre tudo comprado, ou fruto de interesses pessoais e políticos. Quando abro uma revista aqui ou mesmo ligo meu computador, fico indignado com a cara de pau de alguns editores em, sem a menor vergonha, empurrar bandas goela a baixo das pessoas, só porque tem algum vínculo com as mesmas.

É uma ofensa a nós mesmos que em cada centímetro de espaço, temos que cavar com as unhas até sangrar! Sem contar que uma boa resenha nesse país, ou uma entrevista com espaço ou mesmo uma notícia, tem preço!
 
Entenda que não falo de todos os veículos ou mesmo seus donos, mas sim as pessoas que trabalham pra eles! E acabam usando órgãos sérios para fins pessoais! Uma vergonha! 

MC - Têm muitas bandas com um potencial enorme, mas lançar e até trabalhar um bom disco no Brasil, sinto que é como nadar contra a correnteza.

Há alguns requisitos pra se lançar um bom disco: bons músicos com boas idéias, porque hoje em dia se você não faz um trabalho diferenciado, fica igual a todo o resto; um bom produtor, que não tenha medo de arriscar e saiba realmente o que está fazendo e bons empresários, afinal, um bom ‘marketeiro’ e dinheiro é a chave para uma boa divulgação. É claro que juntar todos esses itens ao mesmo tempo, acho que só nos EUA mesmo, más acho que a tendência nacional é melhorar. 

S  - O Brasil é um dos países onde a pirataria mais cresce. Não seria a hora das bandas encarar de frente este problema, lançando algum tipo de campanha, conscientizando o público ?
TB - Bom, um passo de cada vez! Acho que, como havia dito, um começo é conscientizar a todos, desde banda até gravadora, que os discos para serem mais atrativos ao público, têm que ser não apenas agradáveis sonoramente falando, mas também precisam ter um apelo visual forte! Tem que ser peça de colecionador! O cara tem que pegar o disco na mão e pensar: “Caralho! Esse eu tenho que ter em minha prateleira!!!”. E não só isso. Tem que ser barato! É um quebra-cabeças que tem de ser solucionado. A cada disco, a cada banda!

Fora isso, eu infelizmente não acredito que este quadro mude. A molecada não está nem aí! Eles baixam mesmo! Fazer o que? Discutir como? É como eu disse, tem que valer a pena!
 
MC - O que estamos tentando fazer é lançar um produto diferenciado, com um novo conceito de disco de metal, uma arte gráfica e embalagem diferenciada, para que as pessoas se interessem em comprar. Porém, acho que a tendência do futuro é que as bandas e gravadoras se adaptem a essa situação.

FDS - É muito difícil saber quem mais sofre com a pirataria! O fato é que o CD está caro para o nível financeiro do Brasil ! A pirataria é uma conseqüência disso! Acho que as bandas que mais sofrem são aquelas que vendem um grande número de discos! Não sei como é possível parar com esse crescimento, mas o fato é que o CD está realmente caro na minha opinião!

S  - Percebi que a maioria dos músicos possuem sites pessoais. Isso seria uma proposta profissional de encarar a carreira de músico ?
MC - Sim. Eu vivo de música, através de diversas atividades na área. Dou aulas de música, trabalho como freelancer tanto em shows quanto em estúdio e tenho alguns projetos de bandas. Acho que investir na imagem pessoal também é investir nesses projetos, pois é assim que consigo ‘tempo’ para mantê-los até que eu consiga depender só deles! 

S  - Para mim, o KARMA toca um heavy metal sem fronteiras. Em "Leave Now !!!" você pode escutar desde baladas, músicas típicas do estilo até inserções de berimbau e vocais rapeados, sem perder a essência do estilo. Se isso é possível, por que motivo vemos tanta proliferação de bandas enjoativas e chatas no cenário mundial seguindo uma tendência que foi criada há quase vinte anos atrás na Alemanha ?
TB - Ah... isso tem nome: Medo de mudar! Mas meu amigo, não se admire não! Se a maior banda de Metal de todas que é o IRON MAIDEN, tem medo de mudar, imagine o resto de nós mortais...

Mas eu não os culpo. Sim, é só você pegar as bandas que tentaram tal feito:
METALLICA - “Loads”, “Reloads” e até cortes de cabelo... Resultado: Pedradas e mais pedradas!

DREAM THEATER - Os álbuns onde tentaram um paralelo... Queda descomunal de vendas!

SHAAMAN - Este último disco nem sonhou em ter a aceitação do primeiro!

MEGADETH, QUEENSRYCHE, SEPULTURA... Todos ao tentar o novo, se afundaram!

Mas eu não os culpo! Passar a vida fazendo uma coisa só, pode ser muito desgastante! É natural que os grandes, em virtude de sua própria magnitude, tentem se reinventar! É normal e super aceitável! Mas o que temos que admitir, é o preconceito como nossa maior bandeira! Somos assim por natureza! É só pegar todo o ódio de um metaleiro contra um Pagode ou Axé e transferir a seu ídolo quando o mesmo tenta uma mudança! Eles se sentem traídos! Nós nos sentimos traídos! Mesmo que lá no fundinho! Até mesmo quando gostamos do resultado... É bizarro, mas real!

Aí, gera toda aquela infinidade de genéricos tentando ocupar o espaço deixado pelo seu ídolo. É a cultura do faça você mesmo! “Se meu ídolo parou de fazer o que eu mais amo, deixa que eu faço por ele!”

Assim, temos uma estagnação cultural! Toda uma geração de pseudo-músicos sem alma, sem motivo de ser! Começamos a correr atrás do próprio rabo e aí meu filho, as bandas que tentarem se destacar, vão ter que rachar muito a cuca a fim de buscar um meio termo entre o novo e o tradicional!

Mas, se você pensar bem esse é o caminho para as bandas novas que querem se destacar! Esse é o caminho natural da evolução musical!

MC - Tem gente que descobre a fórmula do sucesso (dinheiro fácil) e se acomoda a tal situação. Eu entendo, mas também não entendo. Acho que chegar ao topo da carreia pode dar muito mais espaço a tentativa e criar algo novo, porém o medo de arriscar e botar tudo a perder gera esse tipo de situação.
 
FDS - Acho que o maior problema é a falta de cultura tanto dos produtores e músicos como também do público. Muitos metaleiros usam o preconceito com os outros estilos como uma desculpa para sua própria falta de criatividade. Felizmente, não existe nenhum tipo de preconceito no KARMA e os músicos são livres para usar todos os tipos de influências desde que soem bem! Desse modo, o KARMA não soa como essas bandas horríveis que fazem um som monótono e ultrapassado! Cabe agora ao público perceber essa diferença e apoiar as bandas que fazem um som novo de verdade!

S  - Na maioria das vezes, se você falar com algum jornalista musical de fora ele não conseguirá citar nem cinco nomes realmente expressivos oriundos da cena brasileira. Se encararmos isso como verdade, seria falta de divulgação do material das bandas ou escassez de grupos talentosos ?
TB - Seguindo a teoria que vinha formulando nas perguntas acima... Podemos concluir dois fatores decisivos:

O primeiro seria em volta desse assunto que sem bandas de expressão que realmente somem alguma coisa, fica óbvia a falta de interesse por parte da mídia desses países que tem como tradição, o lançamento e evolução de estilos. Tipo assim: “Por quê dar bola para genéricos, se temos aqui o original?!”
 
Não há interesse em fazer nomes que se destaquem! Todo mundo sabe do alto nível de exigência na ‘gringa’, é mais do que justo essa exigência... Eles podem! O que me lembra nosso segundo fator:
Recursos. Vivemos num ‘paiseco’ de terceiro mundo, onde tudo por aqui é o triplo, quádruplo do preço! Isso, quando chegam as coisas por aqui! Aí fica difícil de acompanhar! Sem contar que lá, as marcas esquentam o mercado dando patrocínios financeiros a seus endorsers, de forma que eles sejam bancados para ficar em casa simplesmente estudando! Você já viu algo por aqui assim?
 
Terceiro seria nosso último tópico, a falta de interesse de nós mesmos em  sermos diferentes! Acho que o Brasil tem a cultura musical infinitamente ampla! Se fossemos menos preconceituosos e buscássemos mais influências aqui de dentro mesmo, a história seria diferente! É só você analisar que chegará a essa conclusão. Repare que bandas fizeram sucesso lá fora, tinham como principal diferencial as raízes brasileiras, não é mesmo? Isso diz muito sobre nós como povo! Zombamos do patriotismo americano, por exemplo, mas se você pensar bem é tudo que nos falta!
     
FDS - As duas coisas! O Brasil tem algumas bandas boas que merecem ser ouvidas e que sofrem com a mesma falta de divulgação que o KARMA enfrenta. Porém, não são tantas bandas assim se você for pensar na qualidade dos músicos brasileiros. A música brasileira é uma das mais criativas do mundo e eu acho que muito pouco deste talento está sendo usado no Metal. Muitos metaleiros daqui são músicos preguiçosos que não gostam de estudar e acham que o Metal é um estilo que dá pra tocar sem estudar muito!

Muitos produtores e empresários brasileiros também sofrem com essa falta de cultura não sabendo separar bandas boas para colocar no mercado brasileiro causando uma falta de bandas boas no Metal nacional!

S  - Com todo esse intervalo de tempo entre os álbuns, o que vocês fazem paralelamente ao grupo?
TB - Como você sabe tenho um estúdio e sou produtor.

MC - Tenho outras bandas. Toco também com o TEMBLOR, VOX, estou gravando o CD solo do Edu Ardanuy, acompanho um cantor de rock pop chamado Flávio Landau, tenho duas bandas que tocam na noite e sou professor de música.

FDS - Todos temos trabalhos paralelos, pois ainda é impossível viver de Metal no Brasil. Mas também gostamos de fazer música em diferentes projetos. No meu caso estou gravando um CD solo lá no Via Musique com produção do Bianchi, e o disco solo do Edu Ardanuy. Também tenho uma escola de música chamada Estúdio Eko.

S  - Algo mais a ser acrescentado ?
TB - Muito obrigado por esse espaço para podermos nos expressar livremente! Saibam leitores, que isso está cada vez mais raro e devemos dar muito valor quando temos tal oportunidade! Valeu!!!

MC - Galera, esse ano é nosso! Estamos vindo pra ficar! Valeu!

FDS - N ão deixem de ouvir o novo disco do KARMA “Leavce Now !!!”, vocês não vão se arrepender!!!

Dynamo Productions
KARMA
Chico Dehira
Felipe Andreoli
Marcell Cardoso
Via Musique Estudios


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