Moonspell

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VERSÃO ORIGINAL EM INGLÊS

SOURCE – Parabéns pelo lançamento de Far From God. Você diria que este é um álbum mais forte liricamente ou musicalmente?

Fernando Ribeiro (Vocals) – Não dá para fazer essa distinção no Moonspell, porque ambas as dimensões coexistem.

Nós compomos de forma quase teatral. As letras funcionam quase como um guião para as canções, orientando a evolução da sua atmosfera e da sua narrativa. Ao mesmo tempo, acontece também o inverso: ouço as primeiras versões das canções e tenho ideias sobre como lhes atribuir as palavras certas.

O que mais me satisfaz em Far From God é a sua coerência e a sua simplicidade. Cada nota, cada melodia, cada arranjo e cada verso apontam para o mesmo lugar, para o mesmo propósito. Penso até que este é o nosso disco mais apurado, mais sofisticado e mais equilibrado.

SOURCE – Uma das faixas do álbum chama-se “Reconquista”, uma palavra em português, embora apenas um verso seja cantado em português. Por quê?

Fernando Ribeiro (Vocals) – Existe uma forte influência nietzschiana em todo o disco, desde o título até à última faixa. O filósofo fala frequentemente sobre a perda da pulsão original das palavras e dos conceitos e sobre como isso afeta as nossas vidas e mentalidades. Mas também sugere que existe um caminho de regresso ao nosso potencial humano. Foi a esse caminho que chamámos “Reconquista”.

Não se trata de um conceito histórico. Não tem qualquer relação com a reconquista territorial de Portugal durante a Idade Média. Na verdade, segue a tradição de canções como Fullmoon Madness, Alma Mater, Tired e The Future Is Dark. São letras quase autobiográficas sobre o que significa estar numa banda, sobre alegrias e sacrifícios, derrotas e recuperações.

Existem palavras que perdem a alma quando são traduzidas. “Reconquista” é uma delas. É história, memória, geografia e metáfora ao mesmo tempo. O inglês consegue explicar a palavra, mas não consegue habitá-la.

O verso em português funciona quase como uma invocação. Lembra ao ouvinte — e talvez também a nós próprios — que o Moonspell continua profundamente ligado a um lugar muito específico da Europa, com os seus fantasmas católicos, a sua melancolia e as suas contradições.

Por vezes, uma única frase na nossa língua materna diz mais do que uma canção inteira em inglês.

SOURCE – Quais escritores brasileiros mais influenciaram a sua escrita?

Fernando Ribeiro (Vocals) – O Brasil tem uma literatura extraordinária, tanto na poesia como na prosa e na não ficção. Esses autores e autoras ajudam-me a desvendar o mistério que é o Brasil.

A minha curiosidade sobre o país não tem limites. Atualmente, tenho lido Darcy Ribeiro e Boris Fausto para compreender melhor o Brasil contemporâneo, que continua a ser, de certa forma, pouco conhecido em Portugal.

No que diz respeito à minha própria escrita, sinto-me mais próximo de Álvares de Azevedo e Cruz e Sousa. Cecília Meireles também sempre me encantou.

SOURCE – Qual é a sua opinião sobre os Meet & Greets?

Fernando Ribeiro (Vocals) – Um mal necessário. Pessoalmente, prefiro outras formas de encontrar os fãs, para ser sincero. Por vezes, fazemos Meet & Greets pagos por exigências contratuais ou devido à procura dos próprios fãs.

No entanto, preferia encontrá-los num sebo ou num bar, partilhar uma bebida e conversar sem tempo contado nem dinheiro envolvido. Infelizmente, nem sempre isso é possível.

SOURCE – Como você avalia a evolução da infraestrutura de shows no Brasil?

Fernando Ribeiro (Vocals) – O Brasil evoluiu muito do ponto de vista técnico. As produções são mais profissionais, existem excelentes promotores e muitos espaços operam atualmente em padrão internacional.

O público, por sua vez, nunca precisou evoluir. Sempre foi extraordinário.

O grande desafio continua a ser a geografia. Fazer uma turnê pelo Brasil é quase como fazer uma turnê pela Europa em termos de distância, mas com custos logísticos consideravelmente mais elevados.

Mesmo assim, vale sempre a pena. O público brasileiro não assiste apenas aos concertos. Vive-os.

SOURCE – Os fãs brasileiros podem esperar uma nova turnê do Moonspell em 2027?

Fernando Ribeiro (Vocals) – É exatamente isso que esperamos. O Brasil é um daqueles países onde o Moonspell nunca se sente uma banda estrangeira. Existe uma ligação emocional muito forte que sobreviveu às mudanças da indústria musical, às tendências e à passagem do tempo.

Gostaríamos muito de voltar às cidades onde sempre fomos tão bem recebidos, mas também de chegar finalmente a lugares onde ainda nunca tocámos.

Far From God merece essa viagem. E o público brasileiro também.

Photo Credit: Sonja Schuringa

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